O ” CASO DA POMBA DA ADELAIDE” E SUA RELAÇÃO COM O MOTIM DE 15 DE NOVEMBRO DE 1889 PDF Imprimir E-mail
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Qua, 16 de Novembro de 2016 21:56

(Saboia Bandeira de Mello)

 

O vetusto General José Joaquim de Andrade Neves, Barão de Triunfo, respeitado chefe político e pecuarista riograndense, teve por filha a bela e independente  (para os padrões da época)  Maria Adelaide de  Andrade Neves. Mortos os pais e sendo viúva nova, passou a ser tratada por “Baronesa do Triunfo”, por mera cortesia, já que no império os títulos não eram hereditários. Herdou, além da fortuna, a influência política, controlando os “votos de cabresto” da família, sendo adulada constantemente por candidatos e seus padrinhos influentes.

A Cobiçada


Em busca de uma aliança política, foi bater à sua porta o Marechal Deodoro, então Vice-Governador da Província do Rio Grande do Sul.


Recebido cordialmente, encantou-se pela beleza da anfitriã, e tentou avanços impetuosos. Foi repelido educadamente, mas não se deu por vencido.


Passou a assediá-la com juras de  amor e promessas, apesar de casado, conseguindo lançar-lhe  a semente da dúvida no coração .


Esta não lhe dizia “sim”, nem “não”, deixando as coisas em “banho-maria”.

O preterido

Algum tempo após, com igual finalidade, visitou-a o deputado Silveira Martins.


Da política, a conversa desbordou para equitação, “hobby” de ambos, e Silveira decidiu impressioná-la com piruetas e saltos de obstáculos. Em determinado momento a montaria refugou, foi ao solo, e a consequência foi  grave fratura em uma das pernas.


A anfitriã o fez recolher à sua casa, chamou médico, hospedou-o durante o tratamento, que duraria um mês. Neste interregno ia seu quarto, para verificar os progressos...


Em uma destas visitas, com  jeito e agrado Silveira Martins obteve o que fora negado ao pouco galante rival .

O vencedor


Recuperado, prosseguiram se encontrando . Deodoro passou a ser “carta fora do baralho”, odiando- o , sendo recíproco o sentimento.


Não há prova de quem  tenha sido iniciativa ; pode, mesmo, ter sido um terceiro despeitado Mas o fato é que começaram a circular pelos “bolichos” panfletos que faziam chacota da sensualidade da jovem senhora ,  com uma quadrinha ferina:


Papagaio come alpiste,

Coruja bebe azeite,

Mas a pomba da Adelaide,

Come carne ,  bebe leite”.


Silveira, atribuindo ao outro o que hoje chamaríamos de bullying, tomou as dores da amante, e não fez por menos : subiu à tribuna da Assembléia Nacional, e proferiu veemente discurso acusando-o de malversação do erário. Terminou dizendo: “Um governo forte haveria logo demitido esse Vice-Presidente da Província e mandado que preso se recolhesse à capital do Império para ser submetido a Conselho !


A acusação gerou processo, que acabou em absolvição . Mas o ódio, entre ambos, que já era grande,  se tornou mortal.


Deodoro nunca foi republicano, embora compartilhasse da insatisfação generalizada do Exército quanto ao tratamento que recebia do gabinete (ministério) chefiado pelo Visconde de Ouro Preto. Soldos apertados, promoções atrasadas, enfim, aquilo que os militares consideravam, com razão, incompatível com os méritos que haviam demonstrado na Guerra do Paraguai.


No motim do dia 15, que fora convencido por oficiais positivistas (estes sim, republicanos) a chefiar, Deodoro tomou sem resistência o quartel-general e destituiu manu militari os ministros ali reunidos sem, em momento algum, aludir a uma eventual república. Ao contrário, deu um“Viva o Imperador” ante a tropa reunida, desautorizou expressamente alguns que ensaiaram gritos de “Viva a república”, e afirmou a Ouro Preto que o monarca nomearia outros ministros, a partir de uma lista que tinha já  elaborado. Tentou se limitar a depor o ministério .


Feito isto, foi para casa dormir, e o Brasil continuou   monarquia tropical .


Por ordem sua, a esposa proibiu o acesso dos  positivistas que insistiam em  convencê-lo a instituir nova forma de governo.


Estes lançaram uma onda de boatos, como que o imperador teria se decidido pela dissolução do Exército e fortalecimento da Guarda Nacional, que a “Guarda Negra” estaria se dirigindo à Escola Militar para espancar os cadetes, e daí por diante. Nenhum deles logrou abalar o marechal, que nutria amizade por aquele que sempre o prestigiara em sua carreira.


Isto, até que alguém lhe dissesse que Dom Pedro haveria convidado Silveira Martins para presidir o novo gabinete. O homem se sentiu ameaçado, “virou fera”, disse que jamais permitiria tal, e assinou o “Decreto nº 1” proclamando, ainda que “provisoriamente” e ad referendum de um plebiscito a ser convocado ( o que ocorreria, de fato, só  em 1993), a República.


Não se sabe o que Dona Adelaide achou disto tudo! Mas o resultado, todos conhecem. Tornou-se ditador, sua ditadura foi sucedida pela de Floriano, acabando o poder transferido, não ao povo, mas às oligarquias, que se perpetuaram mediante eleições “à bico de pena”, até a Revolução de 30, com uma tentativa de “revolução” a cada  três ou quatro  anos.


Os  libertos não foram integrados à vida econômica, sendo esquecido os planos de assentamento rural da Princesa Isabel . Os trabalhadores continuaram sem qualquer direito por mais  40 anos, e a Revolução de 30, feita em nome de uma suposta “Aliança Liberal” (!) descambou para o “ Estado Novo” em 1937. De lá para cá tivemos alguns interregnos de normalidade democrática, em meio a golpes, tentativas, novas ditaduras, rupturas da ordem jurídica, e descaso pelos direitos humanos. Além, é claro, de dois presidentes eleitos destituídos pelo Congresso, inflação, recessão,  arrocho salarial, e os afrodescendentes em situação de inferioridade no mercado de trabalho e na educação.


Claro que a culpa não foi de Maria  Adelaide , mas, cá para nós, antes tivesse ela cedido às propostas libertinas . Limitaria ao âmbito doméstico o que se tornou um problema nacional, até hoje mal resolvido.


Notas:

- bolichos são estabelecimentos mistos de armazém e bar, do interior gaucho.

- Guarda Nacional era uma milícia  análoga às atuais policias militares

- Guarda Negra foi uma organização semi-clandestina, de ex-escravos, que louvava a Princesa Isabel, e atacava eventos de republicanos.


Fontes de Consulta

- Material de divulgação do Movimento Parlamentarista Monárquico (MPM) para o plebiscito de 1993

- Carvalho, José Murilo, “D. Pedro II”

- Silva, Helio, “1889 – A República não esperou o amanhecer”

Gomes, Laurentino, “1889”

- Cerqueira, Bruno da Silva Antunes,  “D. Isabel I – a Redentora”

Obs: - Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

 

 


Última atualização em Qua, 16 de Novembro de 2016 22:15